segunda-feira, 14 de setembro de 2009
















O Grupo Poético de Aveiro faz da leitura dos poemas de José Afonso a sua homenagem ao trovador da inquietação, nascido nesta cidade.Depois da comemoração de 2 Agosto no CETA, a nossa Associação continua a celebrar a memória do poeta cantor.
No dia 12 de Setembro, numa acção de parceria com a Livraria Buchholz, o Grupo Poético de Aveiro espalhou pela cidade a poesia de José Afonso. O feitiço da ria, das luzes, dos moliceiros e o calor das vozes criaram um ambiente poético que os participantes e espectadores nunca irão esquecer.
Continuamos a festejar o poeta da liberdade.
Todos os dias.
(Fotos de Teresa Soares)

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Em cada esquina um amigo - José Afonso 80 anos




No dia 2 de Agosto, o Grupo Poético de Aveiro, em parceria com o CETA e com a colaboração da Livraria Buchholz Aveiro, organizou um espectáculo de homenagem a José Afonso. O público encheu por completo o auditório do CETA, havendo necessidade de abrir as portas para que na rua também se escutasse a poesia e o canto, a magia e a festa que foi celebrar José Afonso.Agradecemos a todos os que contribuiram para que este espectáculo fosse possível e ao público que participou activamente na festa, entoando em coro as canções de José Afonso.



Participantes:


Apresentação de José Afonso - António Morais (CETA)



Leitura de poemas (Grupo Poético de Aveiro)


António Luís Oliveira


José Jerónimo Ferreira


Orlando Jorge Figueiredo


Rita Capucho


Rosário Relva



Cantores e músicos:


Rui Oliveira


Sérgio Pericão


Victor Almeida e Silva

Carlos Jesus (guitarra de Coimbra)


Paulo Larguesa (viola)



Fotografias


Júlio Lemos


MFR

Em cada esquina um amigo - José Afonso 80 anos
















Em cada esquina um amigo - José Afonso 80 anos
















sábado, 1 de agosto de 2009

Em cada esquina um amigo - José Afonso 80 anos


Comemorar José Afonso, um imperativo de liberdadeJosé Afonso nasceu em Aveiro, em 2 de Agosto de 1929. Há oitenta anos! Se o seu nome não é apenas património da nossa cidade, a nós Aveirenses cabe-nos uma responsabilidade maior na evocação e defesa do seu legado de liberdade. Aqui viveu «numa espécie de paraíso». Daqui partiu o «grande trovador moderno», como lhe chamou Manuel Alegre, para unir os «filhos da madrugada» numa roda de utopia, de esperança e alegria, para mobilizar e dar voz a todos os que sonham e lutam no dia-a-dia por um mundo livre, justo e solidário.

Porque uma comemoração é uma comunhão, porque comemorar é lembrar em conjunto, o Grupo Poético de Aveiro (GPA) e o Círculo Experimental de Teatro de Aveiro (CETA) quiseram dar início às comemorações do 80.º aniversário do poeta-cantor de Grândola Vila Morena, em Aveiro, com um espectáculo de poesia e canto capaz de unir todos, novos e velhos, homens e mulheres, em torno da sua obra poético-musical.

Comemoração e festa! É de festa, de celebração que falamos, não obstante as inúmeras dificuldades e incertezas do presente. Ou até por isso. Celebremos o poeta, o cantor, o compositor, o intérprete de grande sensibilidade que foi José Afonso. Festejemos a «inconfundível qualidade da sua voz». Festejemos José Afonso, o «trovador da inquietação», no dizer de Carlos do Carmo. Celebremos o companheiro, o cidadão, o amigo que veio por bem. Festejemos e demos as mãos em defesa do seu legado, que é feito de ternura e subversão, de liberdade e rebeldia, de contínuo aperfeiçoamento, de inconformismo com as injustiças e opressões dos senhores do mundo, de recusa do dogmatismo e do paternalismo, de desprezo pela intriga e pela inveja.

Aproveitemos esta efeméride para conhecer melhor a obra de José Afonso como desafio para nos conhecermos melhor a nós mesmos. Ao longo de mais de 30 anos de actividade, José Afonso gravou 28 discos, abarcando vários géneros, do “fado de Coimbra” à “canção popular”, da “balada” à “canção de intervenção”. A obra de José Afonso — em boa medida ainda desconhecida — é referência natural para inúmeras bandas, músicos e escritores de canções dos nossos dias. Todavia, como afirma José Mário Branco, noutro contexto, «este tesouro» «teria sido um grande nome mundial da canção».


CETA e GPA com o apoio da Livraria Buchholz Aveiro

Tertúlia - A importância da Poesia nas nossas vidas







A Poesia na Ria





































O Grupo Poético de Aveiro, dando vida à excelente iniciativa da Livraria Buchholz, tem participado de uma forma activa nos passeios de moliceiro no Canal Central sob o tema: A Poesia na Ria. Estas viagens poéticas têm tido um enorme sucesso e irão culminar no dia 12 de Setembro de 2009, com um passeio nocturno pela Ria, o que será uma experiência inesquecível para todos os participantes.Convidamos todos os amantes da poesia a juntarem-se a esta iniciativa e a viver esta sensação maravilhosa de ler e ouvir Poesia flutuando num espaço poético único.
















quarta-feira, 10 de junho de 2009

Apresentação Revista Folhas - Letras & outros ofícios

O Grupo Poético de Aveiro agradece a todos os que participaram e tornaram possível a apresentação de mais uma revista folhas-letras&outros ofícios. Aos que participaram enviando os textos, aos que colaboraram no aspecto gráfico e aos declamadores que foram muito importantes para a festa da Poesia o nosso muito obrigado. Agradecemos, também, publicamente, o apoio da Câmara Municipal de Aveiro, um apoio fundamental para a concretização deste projecto que é de todos.Poderá adquirir esta revista na Livraria Municipal de Aveiro, na Livraria Buchholz na Praça Marquês de Pombal, junto ao Tribunal de Aveiro, ou contactando o Grupo Poético de Aveiro.


GPA

Declamadores na apresentação da Revista














































Folhas - Letras & outros ofícios nº 12

BOLETIM DE NOTÍCIAS»
No ano de 1846 é publicado o primeiro jornal em Aveiro




É normalmente considerado O Campeão do Vouga como o primeiro jornal impresso e publicado em Aveiro. Marques Gomes assim o mencionaria nas suas Memórias de Aveiro editadas em 1875,
Este jornal politico, literário e comercial teve e o seu primeiro número publicado em 14 de Fevereiro de 1852.
Impresso no n.º 16 da rua Larga (actual rua de José Estêvão) era propriedade e administrado por Manuel Firmino de Almeida Maia tendo como seu redactor principal o pai do romancista Eça de Queiroz, José Maria de Almeida Teixeira de Queiroz, a residir então no solar de seu pai, o Conselheiro Joaquim José de Queiroz, em Verdemilho. Entre os seus colaboradores iniciais contavam-se, entre outros, José Luciano de Castro, o nonagenário poeta Francisco Joaquim Bingre e Bernardo de Magalhães.
No entanto, o jornal Conimbricense, na sua edição de 22 de Novembro de 1879, o seu responsável, Joaquim Martins de Carvalho (1822-1892), refere ter em seu poder dois exemplares, os números 2 e 4, de um pequeno periódico impresso «no papel fino das cartas mas de formato maior do que as de uso ordinário, em formato 4.º, impresso só de um lado, e publicado em 1846, com o título de Boletim de Notícias». Surgira este Boletim depois de, em Lisboa, a 6 de Outubro, ter ocorrido um golpe de estado palaciano, que ficaria conhecido como a «emboscada». Ocupava-se o mesmo, unicamente, com as notícias do movimento que se ia desenrolando por todo o país, mas referindo-se essencialmente ao que ia ocorrendo em Aveiro e no seu distrito. Lutava-se contra o golpe planeado por Costa Cabral e posto em prática por Saldanha, com o apoio de D. Maria II, que conduziu à exoneração e queda do governo do Duque de Palmela e à constituição de um ministério que continuaria uma politica governamental de cariz autoritário e centralista idêntica à instaurada pelo governo Cabralista. Desfaziam-se as últimas esperanças do movimento popular, iniciado no Minho, que ficara conhecido como a revolta da Maria da Fonte.
O novo governo, afim de melhor conter os protestos que naturalmente se desencadeariam, decreta, com a duração de um mês, a suspensão de todas as garantias constitucionais, provocando a suspensão de todos os jornais políticos, só permitindo, além do Diário do Governo, jornais científicos e literários.
Apesar da proibição governamental, e podendo mesmo ser considerado como clandestino, é publicado em Aveiro, no dia 11 de Outubro ás 11 horas da manhã, conforme se fez mencionar logo por baixo do seu título, o primeiro número do Boletim de Notícias. O n.º 2 é datado de 12 de Outubro e o n.º 4 tem data de 14 desse mesmo mês. Tinha edição diária e coincidia a sua publicação com o início da guerra civil da Patuleia.
Alertado por esta notícia Marques Gomes procedeu a investigações dando conhecimento das mesmas nas páginas do bissemanário Distrito de Aveiro (jornal de vida longa que foi publicado entre 1871 e 1909, sendo seu proprietário, director e redactor António Augusto de Sousa Maia).
Afirmava desconhecer a existência do Boletim de Notícias, o mesmo sucedendo com a maior parte dos seus conterrâneos, afirmando não saber quando saíra o primeiro número nem tão pouco quando terminara a sua publicação. Podia assegurar agora ter sido o mesmo publicado nesta cidade e que não se teriam chegado a editar vinte números, de acordo com a informação que lhe fora prestada por pessoa que participara na sua impressão. Rangel de Quadros, nos Apontamentos Históricos, refere a saída de apenas doze números, sendo os três primeiros redigidos pelo Governador Civil de Aveiro e os restantes pelo seu secretário-geral.
Ambos estavam errados no que ao número de edições dizia respeito, como veremos adiante.
Nada constava no Boletim de Notícias quanto ao local da sua impressão. À data apenas existiam duas tipografias em Aveiro. Uma era a do Governo Civil, criada pelo primeiro governador do distrito, José Joaquim Lopes Lima. A outra era propriedade de Joaquim António Plácido, onde não constava que à data se imprimisse jornal algum.
Confirmou-se que o Boletim de Notícias fora impresso e era propriedade do Governo Civil de Aveiro, redigido pelo próprio governador, Custódio Rebelo de Carvalho e pelo seu secretário-geral, José Pereira de Carvalho e Silva.
No seu segundo número o Boletim referia que o Distrito de Aveiro sempre resistira à tirania e que «por combatê-la tem tido tantos sofrimentos» pelo que «não podia receber sem protestar o que hoje se lhe preparava». Apenas constara em Aveiro que o partido Cabralista «esquecido da moderação e generosidade com que havia sido tratado se tinha revoltado», as pessoas influentes da cidade reuniram-se no Governo Civil tendo decidido sustentar a todo o custo o movimento nacional e tomaram as medidas que as circunstâncias exigiam. Assim, no dia 11, «reuniu-se a Guarda Nacional, vitoriou-se o povo, a coisa popular e a Carta, e acompanhados de um concurso imenso de povo dirigiu-se ao Governo Civil e seguiram-se as diferentes ruas da cidade, repetindo os mesmos vivas, que eram recebidos e respondidos com o mais decidido entusiasmo». Concluía «Em poucos dias estará armado todo o Distrito, e marcharão para onde se lhes ordenar tantas, ou mais forças do que as que já se prontificaram para salvar o País».
No seu n.º 4 noticiava, o Boletim, que o entusiasmo popular crescia de dia para dia e que o triunfo era já infalível. No que respeitava à situação em Aveiro informava que nesta «cidade patriótica se vai armar um corpo que marchará para Coimbra a fim de operar convenientemente», e que para Vila da Feira tinha partido o ilustre cavalheiro Mendes Leite afim de organizar um batalhão nacional móvel.
Como notícia de última hora informava que «por cartas particulares consta que os facciosos Cabralistas já foram escarmentados pelo povo nas imediações de Lisboa. Centenas de cidadãos têm saído daquela cidade a engrossar as fileiras das forças populares de Sintra, Vila Franca e outras localidades. A causa do Povo triunfará irremediavelmente da tirania dos Cabrais».
Mas Joaquim Martins de Carvalho voltaria a abordar a questão do Boletim de Noticias nas páginas do Conimbricense.
Em 4 de Maio de 1880 refere ter recebido numerosa correspondência oficial que fora dirigida, em Novembro e Dezembro de 1846, ao Marquês de Loulé, então Governador Civil de Coimbra, correspondência que ficara oculta naquela cidade para não cair nas mãos dos Cabralistas, quando as forças populares retiraram para o Porto.
Pois, entre toda essa correspondência encontrava-se um ofício do Governador Civil de Aveiro, datado de 22 de Dezembro de 1846, remetendo o n.º 33 do Boletim de Notícias, que tinha sido publicado em Aveiro nesse mesmo dia.
Se não foi o último número publicado poucos mais terão conhecido a luz do dia porque, na mesma data em que saiu a público o n.º 33, as tropas do Marechal Saldanha massacravam, em Torres Vedras, as forças «patuleias», iniciando o seu avanço em direcção ao Porto.
O Boletim de Noticias tinha, ingloriamente, cumprido a sua missão.


Jorge Campos Henriques

Folhas - Letras & outros ofícios nº 12

ERA ASSIM NA BEIRA-MAR…



Sou filho duma simbiose difícil: nasci na freguesia da Glória, ao que me dizem ali para os lados da travessa de São Martinho, mas filho de pai "cagaréu", marinheiro, e de mãe "ceboleira".
Já lá vão os tempos em que se roubavam os andores, se apedrejavam os namorados das freguesias rivais, se ridicularizavam, reciprocamente, as referências caracterizadoras dos nascidos na Vila Velha, a Glória, e na Vila Nova, a Vera-Cruz.
Sou simbiose disso tudo: fruto do salgado do peixe maila cebola e a chanfana.
E, por isso mesmo, quando olho para a freguesia onde nasci — a Glória — não sou capaz de nela pensar sem deixar de também me sentir vestido de camisa de linho branco e de manaia azul, roupas próprias do marnoto da Vera-Cruz.

***


Os meus pais casaram-se ainda nos tempos em que existiam diferenças profundas entre as gentes da Beira-Mar e da Glória.

Em casa da minha avó materna, na Glória, comia-se numa mesa como as de hoje, e as pessoas sentavam-se à sua volta em cadeiras normais. Cada conviva tinha os seus pratos, um ladeiro e um sopeiro, o seu copo, os seus talheres, o seu guardanapo. Vivíamos num primeiro andar, com soalho de madeira. A cozinha era uma divisão separada da sala de jantar.



Em casa da minha avó paterna, na Beira-Mar, uma casa térrea situada na então chamada rua de São Roque, comia-se, normalmente, numa cozinha de chão batido, coberto de junco fresco, frequentemente renovado, que deitava um cheirinho que era um regalo. Num canto ficava a lareira onde estava uma grande panela de ferro, de três pés, cheia de água permanentemente aquecida por um brasido que o meu avô Ti Luís, sentado num banco corrido encostado à parede, ia alimentando com imenso carinho. Era ele quem normalmente cozinhava.

Jamais esquecerei as caldeiradas que ele preparava, em banho maria, com o desvelo inexcedível próprio de quem tinha andado ao mar e ao rio, na sempre sofrida arte da pesca. O peixe tratado por quem o apanhou sempre foi objecto de cuidado que o leigo não domina. É que quem foi pescador sabe dar um valor acrescentado aos mimos que o mar dá. Desde o amanhar ao temperar de sal, desde o colocar, em camadas, as rodelas das batatas e das cebolas até ao esmero dos últimos condimentos que só ele conhecia, tudo isso obedecia a um ritual que era muito seu. O cheiro que se desprendia da panela era o melhor convite para nos aproximarmos da mesinha baixa colocada no meio da cozinha. E sentarmo-nos à sua volta, nos mochos, cada um com o seu talher, à espera que a minha avó Guilhermina trouxesse a bacia onde previamente, com a “escumadeira”, colocara, com imenso cuidado, a caldeirada. O meu avô ti Luís, com as dificuldades de quem é manco levantava-se, então, da lareira e ocupava a cadeirinha baixa que a minha avó já lhe tinha ajeitado. Depois sentava-se ela, separada do meu avô só pelo “palhinhas” com a sua litrada de tinto que ela colocara no chão e que servia aos dois.

Procurando copiar com enorme zelo todos os gestos dos meus avós e do meu tio, irmão de meu pai, que gostava muito de mim e me conduzia naquele mundo da Beira-Mar a que não estava habituado, arriscava avançar com o meu garfo em direcção à bacia, tirando o conduto do quinhão que me tocava.



Relembro tudo isto com uma saudade que me emociona sempre.

Quando o meu avô levava à boca o “palhinhas” para emborcar o seu golo de tinto, todos paravam de retirar comida da bacia. Só se recomeçava a comer quando ele voltava a pôr sobre o junco o pequenino garrafão. Enquanto ele bebia, ninguém tocava na caldeirada.
Estas paragens, ao princípio, metiam-me engulhos. Não descansei enquanto não ganhei coragem para perguntar porque se parava de comer sempre que o avô se servia do “palhinhas”.
E foi a avó Guilhermina quem deu a explicação. “É fácil de compreender, meu menino; enquanto qualquer um dos avós bebe, os outros param para que uns não comam mais do que os outros.”

Calei-me. A explicação tinha uma lógica irrefutável. E, no fundo, revelava um fortíssimo sentido de solidariedade, de comunhão, tão próprio das gentes da borda de água. Das gentes que dependiam da Ria e do Mar e que sabiam alimentar, com as dificuldades da vida, uma enorme e profunda irmandade.


Gaspar Albino,

17 de Maio de 2009