domingo, 15 de novembro de 2009

Chuva inquieta - Regina

CHUVA INQUIETA

Ele abrigou-se no vão estreito de uma montra

Havia electrodomésticos demasiado ferozes
Para aspirar, triturar, fotografar, aumentar, congelar...

Para se aquecer puxou até ao pescoço o cartão frágil
Só ficou com os pés de fora, à chuva
E adormeceu com um beijo LCD bem panorâmico

A chuva transformou em enxurrada,
Galgou para fora das sarjetas,
Inundou os passeios e as estradas

Pela manhã, quando passou, varreu-se a lama,
Limpou-se os vidros dos olhos
Fez-se as contas para contabilidade
Mas quase ninguém reparou nos pés caídos
De um homem que morreu de frio
No coração Bluetooth de uma cidade

Regina

Chuva - M. Dias da Silva

Chuva

Encosto-me aos umbrais

do tempo e escuto

a lenga-lenga do vento

Leio-me atado ao silêncio

Reagrupo mitos

até avistar as marés

Esfrego os olhos Entro

na cena Sem ruído

adivinho a chuva

nos pinheiros

M. Dias da Silva

OS GUARDA-CHUVAS DE RENOIR - J.T. Parreira

OS GUARDA-CHUVAS DE RENOIR

O céu é octogonal

Chovem os guarda-chuvas
abrem espaços azuis
é o tempo de soltar
pássaros de pano

pássaros de um azul
metálico
sobre cabeças contentes

Mais do que fender os ares
com nuvens metálicas
paira uma luz húmida
sem tumulto

penetra no ar e no chão
faz nascer o dia
como do fundo de tudo.

J.T.Parreira

Chuva - Manuel Ferreira Rodrigues

Chuva

não sei se algum dia te disse, gosto de todas as estações do ano, mastenho uma afeição extrema pelos períodos de transição. de mudança.especialmente quando o outono ainda não é outono e já não suporto ocalor-sempre-calor do verão. quando sinto que as primeiras andorinhassão promessa de dias inteiros sem nuvens, sem frio e sem chuva —aquela irritante chuva muda de Fevereiro —, e os campos se vestem demil verdes e as flores brotam até das rochas.

quando chegam as primeiras chuvas do fim do verão desfruto de um dosmaiores prazeres: sentir o aroma da terra molhada, o perfume picanteque emana de toda a parte e me inebria, o odor húmido que se libertaainda quente da relva dos jardins, do asfalto mal lavado pelas bátegasda noite anterior, das paredes das casas exibindo as marcas dasúltimas invernias. é um aroma, sim. é de aroma que se trata. de umolor, de uma essência odorífera, de uma fragrância rebelde. e aqui,onde vivo, essas exalações misturam-se com a maresia, trazida pelasgaivotas brancas que invadem a cidade em círculos, confundindo mar eterra, neste tempo de transição. de mudança.

e a luz, uma luz coada e doce, que se intromete entre dois cirrosvigilantes no silêncio azul do céu, mostra todas as suas cambiantesneste final de tarde. neste outono-ainda-verão. há pouco, quandocomecei a escrever-te, uma luz de mel, pastosa, quase líquida, deitava-se como um manto ocre sobre o casario pintado na tela luminosa daminha janela. agora, uns farrapos cinzentos cobrem a paisagemanunciando a chegada da noite. espero. o cinza escuro do céu desvanece-se e logo de seguida, lentamente, uma névoa fina e dourada recobretoda a paisagem.

escrevo. a névoa adensa-se e atenua-se a luz enigmática de há pouco. achuva cai mais ruidosa, enquanto a névoa se dissipa. adoro este tempoque tudo muda. que me muda. adoro, como te disse, os períodos detransição. de mudança. por isso gosto do fim do dia.

agora, a chuva cai em surdina. fecho a janela. o calor no quarto éinsuportável. abro-a de novo e fico quieto. muito quieto. um friomarinho entra no meu quarto. uns pingos rebeldes chegam trazidos pelovento e denunciados pelo sussurro rouco das goteiras, com saudades dachuva. uma luz estranha, enigmática, dourada, mostra-se de novo.vivamente. a luz, neste momento, tem uma intensidade acobreada.delicada. única.

desvanece-se depois, quando se vêem os primeiros candeeiros lá aofundo. na cidade. a noite vai chegando. débil, a luz de um sol já semforças, morre lá longe.

por fim, o céu escurece. um vento forte fustiga agora as árvores quese despem de folhas e de pássaros. chegou a noite. outra noite. estanoite. com chuva.

Manuel Ferreira Rodrigues

Não sei se é chuva - Orlando Jorge Figueiredo

Não sei se é chuva

não sei se é chuva
o eco da tua voz
nos poemas
que não lemos

não sei se é chuva
esta tristeza
que adormece
dentro de nós

não sei se é chuva
a luz que se apaga
nas palavras
que não dizes

não sei
se é chuva
estas gotas
salgadas
que morrem
nos meus lábios

orlando jorge figueiredo

a dança da goteira - Ulisses

-a dança da goteira -

como um bote frágil numa maré violenta
dança, agita-se, fremente, a casa.

(assustados os bichos e eu, espreitamos
soluçantes, a tempestade que lá fora se afirma)

RAM!, Bruh! Uuu!
breu na casota escondida na montanha,
o cão da vizinha treme da sua cegueira
as gentes queixam-se da sorte
eu escondo-me na cama.

até que.

na planura melosa do medo. ouço.

(um barulho frenético, um gorgolejar insano.
um ping-ping em alta rotação. a goteira
canta estala vive!)

No meu bote frágil nessa maré de violência
eu e os bichos dançamos. toda a gente dança.

-a dança da goteira-

Ulisses

Chuva de Catarse - Carla Ribeiro

CHUVA DE CATARSE


Chuva que cai
e não molha.
Chuva que cai
e não sacia a sede da terra,
nem a sede de vingança
incendiada pelos fogos do ódio humano.

Não há chuva que apague estes fogos!
Não há santos que regulem esta meteorologia!

Mesmo assim,
prefiro a chuva que não cai
e não molha,
e não rega,
e não se vê nem se sente,
Aos ventos tortuosos e secos,
às tempestades cataclísmicas
que sopram… sopram…sopram…
e afinal, também não trazem nada.
Pode ser quer assim,
alguma gota de consciência brote
e transforme esta
Humanidade desumana
numa poça de esperança…
Numa chuva de catarse!


C.R.

Chove - Maria Mamede

CHOVE

Chove dentro e chove fora
da alma, como na rua
onde tanta gente passa
e a vida fica sem graça
pelo cinzento que o céu tem...

e a chuva que tudo alaga
vai lavando e vai passando
vai correndo, vai fugindo
encontra o plaino e vai indo
pra onde? Sabe-o ninguém...

agora chove mais forte;
e chega o vento do norte

a empurrar, a empurrar
para a levar não sei onde
talvez perseguindo alguém...

e vai seguindo, seguindo
numa dança sem compasso
e levantando e caindo
a dançar no olhar baço
na espera do que não vem!...

Maria Mamede

Nostalgia - Lurdes Breda

Nostalgia

Ritmada, a chuva goteja
Sobre a nudez das árvores.
Através da imobilidade lacrimejante,
Da minha janela fechada,
Observo a viagem apressada das nuvens.
Distante, o céu assemelha-se
A um imenso lago cinzento, invertido.
Um pardal de telhado
Pousa num ramo de pessegueiro.
No corpo despido da árvore
Assomam botões estremunhados,
Como minúsculas feridas rosadas.
Narcisos solitários
Tremulam no vento
As campânulas amarelas,
Num aceno de pétalas embriagadas.
O latido de um cão, longínquo,
Propaga-se na chuva que não pára,
E afugenta o pardal de telhado.
Na lareira, as labaredas
Fazem amor alucinadamente.
Prendo os olhos
No seu bailado cor-de-laranja
E acendo a esperança
Dentro e fora de mim…


Lurdes Breda

Chove - Ana Paula Mabrouk

Chove

Chove!
Faz frio cá fora neste sentada sozinha
Ouve-se o barulho-chuva cair nos beirais
Com pa ssa da men te….
O seu som embala ao cair nas árvores altas
Lavando o ar-cinza da semi-obscuridade.
Nada move os quietos prédios verticais
Onde a chuva escorre, chorando vidros abaixo
Gotículas-lágrimas doces silenciosas.

Tanto frio!
Não sinto os pés nem a alma…
Chove agora em turbilhão
E o silêncio do lado de cá
Atroa ao som da chuva que fustiga o lado de lá.
Um vento gélido varre o telheiro-cimento
Onde sentada me encontro escrevendo
Trança de água nesta tarde invernada
Triste, profundamente negro-triste.

Chuva-fria!
Pesada a tarde, a chuva e o frio
O silêncio ensurdecedor deste lado
E o ritmo compassado do outro
Os prédios rígido-verticais
Estes blocos-cimento abandonados
E esta solidão tão desnuda!
Ah, tarde sem fim!
Que em mim estás morrendo
E morrendo eu em ti.

Ana Paula Mabrouk

Chuva - Isabel Rosete

Chuva quadrada
Chuva redonda
Chuva obliqua
Chuva de qualquer forma

Chuva da ausência
Chuva da presença
Chuva dos encontros
Chuva dos des-encontros

Chuva do Mar
Chuva da Terra
Chuva das Fontes
Chuva das Tempestades

Chuva dos Amores
Chuva das Paixões
Chuva das Angústias
Chuva das Solidões

Chuva do Sol
Chuva da Lua
Chuva das Estrelas
Chuva das Galáxias

Chuva e mais Chuva, sempre…
A Chuva do Mundo
A Chuva das Almas
A Chuva da Humanidade!

Isabel Rosete

Tema semanal

O Grupo Poético de Aveiro lançou um desafio à sua comunidade virtual, no grupo google, para a criação de poemas com um tema semanal partilhado.
Ao longo das próximas semanas, iremos colocar neste nosso e vosso blog alguns dos poemas dos membros do grupo.
Obrigado pela vossa colaboração.
Boas leituras.