quarta-feira, 10 de junho de 2009

Folhas - Letras & outros ofícios nº 12

AVEIRO, CAMINHO PARA A VIDA



Bajo el telón de un cielo clavado en la neblina
rasgué la tierra un dia buscando mis raíces

en la ceniza un barco encontré y así fue
que empezó la magia de la navegación,
alma de oceano abierto que le robô el ancla al corazón,

chispas de luz en el perdón de una sonrisa
colores de un espejismo
hecho poesia que me sorprendió
Aveiro al avistar en el altamar
…é só porque as tuas ondas
são puras a)



Brigidina Gentile
Roma, Itália



a) Palavras do poema “Mar”
de Sophia de Mello Breyner Andresen

Folhas - Letras & outros ofícios nº 12

AVEIRO



Digo Aveiro
digo luz
e mar inmenso.

Digo Aveiro
poesía
sentimento.

Abrazas a auga
co lume dos teus ollos.
Somerxida no azul
inundas o horizonte.

Na area conxugas os reflexos.
E bebes a sorbos
a maxia dos teus silencios.

Mar ondulante
de luces transparentes
onde florecen as sereas
e se mesturan as fronteiras.

Atravesas a cidade
tatuado na brisa
con ese raio de sol
que colorea os teus canles.

Nun navío de cores
sucarei os espazos.
Ireime e tornarei
enchida de burbullas
sementes e palabras.


Tornarei
cando o teu rumor me chame.
Cando a luz da túa auga
os meus soños ilumine.

Digo Aveiro
brilla a lúa
baila o vento.

Digo Aveiro
digo luz
e mar inmenso.


Asun Estévez
(Pontevedra)

Folhas - Letras & outros ofícios nº 12

POEMA PARA AVEIRO




Nunca antes de ahora supe de vuestro mar,
de vuestra realidad de cada dia. Nunca vi amanecer
como aquí amanece, com olor a jazmín y a mar
acariciándome.

Ahora este mar es mi mar.
en él escucho su canción
y la música me llega al alma.

La palpo entre mis dedos
como palpo el cielo
llenándose de espejos en mis ojos…

Ni el mar tan vivo,
ni siquiera el horizonte
tan pleno de fragancia,
ni la mañana batiendo el vuelo
entre brisa continua y sosegada,
será capaz de apagar en mí
la fria escarcha
que cautiva mi cuerpo.


Araceli Saguillo
(Valladolid)

Folhas - Letras & outros ofícios nº 12



EM MEMÓRIA DE ANDRÉS QUINTANILLA BUEY




Morreste-nos. A todos.
No entanto, nasce um sol cada manhã,
Como dizias, e é justo,
A quem, como tu, a caminhar ficaste caminho
No caminho das tuas palavras,
Quem sabe, na margem de novas primaveras.

Confesso poeta metade terra, metade nuvem,
Inspiração e força buscando a paz
Nas duas eternas margens:
Que nos escutes ainda,
Nos aconselhes ainda,
Aglutines em torno da eterna poesia
Que sempre cultivaste,
Esse amor do canto que deixaste
Plasmado em tantas partes onde andaste.

Morreste-nos, amigo,
A todos nós.
À tua mulher e ao teu filho.
A “Juan de Baños”, o grupo, e ao “Sarmiento”,
À “Academia” e aos “Viernes” e à tua terra que cantaste,
E ainda ao “Grupo Poético de Aveiro”
Cujos trabalhos inspiraste.

Morreste-nos.
Seguiste o teu destino conquistado aos
Homens todos que tocaste além das palavras luminosas.
Ficaste farol do outro lado do tempo,
Voltado à praça dos cegos,
No jardim dos poetas,
Cheio de pombas e flores brancas e verdes.

Mas morreste-nos, amigo.
Morreste-nos.
A todos!



António Luís Oliveira



(Poema lido em Valladolid, em Outubro de 2008, na homenagem ali realizada pelo Grupo Literario e Artistico Sarmiento e pela Academia Castellana y Leonesa de la Poesia, de que o poeta foi mentor e Presidente)

Folhas - Letras & outros ofícios nº 12

O VERBO SALINAR

Eu ia a caminhar por aquela rua
(Eu caminhava por aquela rua todos os dias)
Até que de repente tropecei numa pedra.
Baixei-me para ver melhor a pedra.
Não era pedra: era um verbo.
De tropeção em tropeção
Lá fui o verbo conjugando.
Era um verbo da primeira conjugação
E ardia na língua quando o ia soletrando.

Era branco, o verbo
E havia em toda a parte:
Nas lágrimas, na pele
E especialmente no mar.
Experimentei dizê-lo
- Mas que coisa tão singular
“Eu salino”
Logo tu achaste engraçado
E também salinaste
E até o velho cansado
Nesse dia não cantou
Em vez disso salinou.

O mar foi-se enchendo de sal
E encheu tanto, tanto, tanto
Que passou a ser plural.
Foi então que, juntos, salinámos pelo mar fora
Enquanto vós também salinastes
E eles salinaram até ao romper da aurora.

Até que um dia, de tanto salinar, que grande tropeção
Todos tivemos um ataque de coração.

Andrea Henriques

Folhas - Letras & outros ofícios nº 12


SEM TIMONEIRO


Assomei à janela do tempo e recordei a barca do teu olhar.
Sorvi na maresia das águas profundas as meias luas de promessas
E nas tuas redes vítreas rememorei cardumes de esperanças
Quando no verde da tua íris perdia o pé e me enredava na tua espuma
Quantas ondas, quantas marés, quantos maremotos naveguei!
Marinheira de água doce, com mestre de embarcação…

No barco ancorado do teu corpo aportei sem sobressalto
E voguei ao sabor dos dias e das noites com sabor a estrelas.
Flor de sal, alegre salpico de vida e de mar…
Veleiro enfunado de brancas velas de vitória
Regatas prazeirosas, sulcando doces vagas
Ventos de búzios entoando cantos de sereia.

Mas eis que uma tormenta assolou meu batel ao largo
Arrastado pela corrente deu à costa canal acima
E foi soçobrando numa ria de moliço
Que enlaçou meus remos e esverdeou meu casco
Cobrindo de perenidade e de algas minha proa altiva
Descerrando minha bandeira de afoita navegante.

Minha embarcação perecível naufragou nas águas salubres
E ancorou, sine die, no estreito quieto e aquoso
Na margem da vida, estibordo da saudosa partida
As cores de festa esmoreceram na ausência das viagens de mar alto
Entristeci nas águas paradas, no lodo do cais.
Sou moliceiro de Aveiro: não tenho moliço, nem timoneiro.


Ana Paula Mabrouk

Folhas - Letras & outros ofícios nº 12



AMO-TE AVEIRO



Amo-te Aveiro, minha cidade
Cheia de sol e de nobreza
O mar te beija, te abraça a ria
Te afaga o vento e em melodia
Cantam poetas, tua beleza.

O sal te dá, vida alegria
Tempera, anima a tua mesa.
Teus dias calmos, de quieto céu
As tuas gentes hospitaleiras
E a amenidade do teu clima
Cativam, prendem quem a ti chega
Com ténues laços de singeleza.

Berço de artistas, de nobres gentes
Tão devotadas à liberdade!
Ninho de fé e de trabalho.
Amo-te Aveiro, minha cidade.

Teus moliceiros sulcando as águas
Soltando ao vento as negras mágoas
Seguem roteiros de fantasia.

Nesses caminhos de alva magia
Berço e tesouro d’algo impreciso
Repousam sonhos abandonados
Doces prelúdios do paraíso.


Aida Viegas

Folhas - Letras & outros ofícios nº 12

ENCONTRO INTERNACIONAL DE POESIA
Saudação aos Poetas Estrangeiros



1 – Aveiro, que já foi apelidada de berço da liberdade, também pode ser designada como cidade da poesia. Na verdade, ante a frequência com que se vão realizando em Aveiro jornadas internacionais de poesia; ante a expressiva variedade de elementos humanos, de vários países, que integram o grupo de poetas que hoje nos visita – parece que outra designação diferente da de cidade da poesia se lhe não ajustaria tão adequadamente…

2 – O facto permite-nos lembrar fugazmente uma teoria poética notável, defendida pelo grande filósofo Hans-George Gadamer, que consagrou uma parte muito apreciável da sua reflexão à fenomenologia da arte. Afirmava ele, na verdade, que esta se apoiava sobre uma base triádica constituída pelo símbolo, pela festa e pelo jogo.
Um traço comum une estes três elementos: a Liberdade. Realmente não há símbolo sem a presença livre e feliz de uma coisa e outra coisa, do simbolizante ao simbolizado e inversamente, como na tabuinha ou na pequena placa de cerâmica que, na Antiguidade, o hóspede e o hospedeiro partiam em duas metades que, mais tarde, no meio das incertezas do mundo e da vida, unindo-se perfeitamente, haviam de proclamar o reencontro feliz dos dois amigos. Quanto à festa, realmente ela não existe, digna deste nome, se não significa afirmação livre, auto-inclusão desejada na celebração que se realiza. O mesmo que acontece no jogo, que só existe quando se aceitam de modo integral as regras que o definem e onde cada um dos participantes se realiza na plena aceitação de todas essas mesmas regras.
Eis aqui, em resumo tosco e apressado, o que a teoria tão bela e tão sugestiva de Gadamer nos propõe para meditar.

3 – Não é festa, símbolo e jogo o que hoje aqui nos reúne? Eu julgo que sim, desde logo porque é a poesia que aqui reina e é ela a senhora por todos nós escolhida e venerada. É ela o centro da festa e é ela que com a sua graça luminosa nos une e nos dá o impulso para abraçarmos toda a cidade. É ela que assim dá sentido à vida que nem sempre vivemos como desejaríamos. Mas é ela também que junta liberdade e harmonia, participação e abertura, convívio e horizontes sem fim…

4 – Não queria terminar, poetas que vindes de longes terras a esta terra aveirense, sem vos dar um breve fragmento de uma página de inimitável ternura de um grande escritor aveirense pela sua terra (o Arcebispo D. João Evangelista de Lima Vidal):
“Nós, os de Aveiro, somos feitos, dos pés à cabeça, de ria, de barcos, de redes, de velas, de montinhos de sal e areia, até de naufrágios”.
Parafraseando o Arcebispo, creio que posso garantir-vos que, neste quadro que simboliza a alma aveirense, também vós, queridos amigos, passais a ter um lugar – um lugar que havemos de honrar tal como a vossa poesia.


Joaquim Correia

Folhas - Letras & outros ofícios nº 12

NOTA INTRODUTÓRIA




No presente número desta sua revista, o Grupo Poético de Aveiro quis dar uma especial atenção à data marcante que a cidade atravessa neste ano de 2009. Há 250 anos, o rei D. José assinou a passagem do burgo aveirense à categoria de cidade e, fossem quais fossem os seus motivos mais profundos, fez justiça. Desde então, por diversas vezes, Aveiro afirmou claramente a sua marca, a sua importância no todo nacional, quer do ponto de vista político, quer do ponto de vista económico, quer ainda como centro estratégico dinamizador das energias nacionais, ao nível da sua liderança de um pujante distrito, como ao nível da sua subtil presença cultural, assente nas tradições das suas gentes dedicadas e generosas.
No âmbito das celebrações que o município promoveu e apoiou, incluímos a nossa organização do Encontro Internacional de Poesia, a que demos o subtítulo de O Discurso Poético Em Aveiro, o qual contou com a presença de muitos autores do Grupo e de muitos poetas vindos de Espanha, da Itália e da Argentina, alguns dos quais não quiseram deixar de dedicar alguns poemas à cidade. São estes e outros poemas, lidos ou não durante o encontro poético referido, que incluímos no presente número da revista.


Grupo Poético de Aveiro

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Apresentação da Revista Folhas - letras & outros ofícios

No próximo sábado, dia 6 de Junho, na Feira do Livro de Aveiro, no Rossio, pelas 18h30m, o Grupo Poético de Aveiro tem o gosto de apresentar a sua revista folhas - letras & outros ofícios. Uma publicação dedicada a Aveiro que conta com a colaboração de vários poetas. A entrada é livre, apareçam e desfrutem da poesia.

domingo, 24 de maio de 2009

Leituras de poemas na ria e tertúlia

No dia 13 de Junho, pelas 16h00m o Grupo Poético de Aveiro irá realizar uma intervenção conjunta, com leitura de poemas de Fernando Pessoa. Esta actividade está integrada na programação da Livraria Buchholz, que promove, a partir de 30 de Maio, leituras de poesia na Ria, dentro de um barco moliceiro.
Os interessados devem inscrever-se na Livraria, situada na Praça Marquês de Pombal, em Aveiro.
Para o mesmo dia 13, à noite, pelas 21h30m O GPA organiza uma tertúlia sob o tema: A importância da poesia nas nossas vidas, também na mesma livraria, aberta a todos os que queiram participar.